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ENTREVISTA COM MARIA DELLA COSTA
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Estréia de Maria Della Costa com Paulo Porto e Henrique Martins
em A Moreninha - 1945
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Por Vânia Barboni
Pioneira. Esse talvez seja o termo mais ouvido quando se pede a amigos ou companheiros
de trabalho uma definição de Maria Della Costa. Ainda jovem, ao
lado de Sandro Polloni, seu companheiro por 50 anos, engaja-se na luta para
construir seu próprio teatro. Na vanguarda de seu tempo, é a primeira
a montar no Brasil uma peça de Brecht. Seu espírito irrequieto
também apresentou aos brasileiros Tennesse Willians e Arthur Miller,
entre muitos outros. Sua sintonia com a dramaturgia internacional, não
a impediu, entretanto, de revelar autores nacionais. Um sem número de
atores e profissionais de teatro que até hoje exercem seu ofício,
deram os primeiros passos na Companhia da diva.
Pesquisadores, profissionais das artes cênicas e o público em
geral, já podem consultar o Centro de Memória do Teatro Paulista
que funciona no prédio do Arquivo do Estado, desde o segundo semestre
do ano passado. Criado com o objetivo de registrar a história do teatro
e disponibilizar as informações para as futuras gerações,
o Centro que iniciou seu acervo com as doações da atriz Maria
Alice Vergueiro e do cenógrafo e figurinista Renato Scripilliti, recebe
agora um reforço de peso. Um dos ícones do teatro brasileiro,
Maria Della Costa, acaba de doar toda sua coleção particular.
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Com Jardel Filho em Moral em Concordata - 1956
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O diretor do Centro de Memória, Emilio Fontana, orgulhoso com a nova
aquisição, explica que o Centro pretende dinamizar sua atividade
atuando simultaneamente em três direções. O material adquirido
(fotos, cartazes, críticas, artigos, programas, ingressos, textos manuseados)
é organizado em mostras de períodos representativos da história
do teatro no Brasil. Do repertório do passado, são resgatadas
peças que recebem montagens abertas ao público. As apresentações
são precedidas de palestras que situam o espectador no momento histórico
e teatral da época.
"A idéia de criar o Centro de Memória do Teatro Paulista
foi do secretário Marcos Mendonça, para que as futuras gerações
não perdessem a importante participação do teatro na vida
cultural, social e política de nosso estado", declara Fontana.
O resultado pode ser conferido por cerca de 7.500 pessoas que foram, no ano
passado, ao Auditório do Arquivo do Estado, assistir a montagem profissional
de À Margem da Vida, de Tennesse Willians com Arlete Montenegro e Cristiane
Fischer Fontana no elenco. As sessões gratuitas são destinadas
à comunidade carente da periferia da cidade "Foi nossa primeira
homenagem. Foi feita ao surgimento da Sociedade Brasileira de Comédia
que em julho de 1948, realizou no Teatro Municipal de São Paulo, uma
apresentação de À Margem da Vida. A renda da bilheteria
foi, na época, convertida para a criação do Teatro Brasileiro
de Comédia.", conta Fontana.
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Com Paulo Autran em Depois da Queda - 1964
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O acervo do Centro passa a contar agora com a coleção doada por
Maria Della Costa que reúne, em trinta quilos de material, boa parte
da história do teatro brasileiro. Entre os documentos cedidos encontram-se
cartazes, programas, textos, croquis de figurinos, desenhos de cenários,
críticas, artigos, além de entrevistas para as revistas Cruzeiro,
Cinelândia, Manchete, Ilusão, Cláudia, Amiga, Fatos e Fotos,
e Veja. Também passam a fazer parte do acervo 695 fotografias de peças
e viagens, 655 em preto e branco e 40 coloridas, que documentam a atriz ao lado
de artistas do porte de Ziembinski, Arthur Miller, Itália Fausta, Paulo
Porto, Jardel Filho, Fernanda Montenegro, Sergio Brito, Ênio Gonçalves
e Jorge Amado, entre outros. Dentre os registros raros, está a foto da
viagem a Berlim, onde ela conheceu Helene Weigel, esposa do grande dramaturgo
alemão, Bertolt Brecht. É possível vê-la também
ao lado do líder chinês Mao Tse Tung.
As histórias se confundem
Maria Della Costa, que vive em Parati, onde administra seu hotel Coxixo, desabafa:
"Até que enfim criaram um centro para preservar a memória
do teatro e das pessoas que contribuíram para o desenvolvimento das artes
no país. Nos países desenvolvidos existe essa preocupação
de preservar e de valorizar seus artistas. Em nosso país não existe
nada. Os políticos não se preocupam com arte. A não ser
o Secretário Marcos Mendonça que tem aberto as portas para que
se faça teatro. Trabalhei durante 50 anos e nunca recebi uma homenagem.
Só esquecimento."
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Areia, filme de Camilo Mastrocinque
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A própria história da atriz, que quase se confunde com a do moderno
teatro brasileiro, revela a preciosidade contida nas peças doadas. Uma
jovem gaúcha, passeando na rua, é descoberta como manequim e torna-se
atriz. Assim começa a carreira de Maria Della Costa, aos 14 anos, quando
é convidada por Justino Martins para ser manequim da Revista Globo, uma
publicação gaúcha. Pouco depois conhece Fernando Barros
com quem se casa e vai morar em Portugal para estudar arte dramática
no Conservatório de Lisboa.
De volta, separa-se de Fernando e vai morar no Rio de Janeiro onde trabalha
no Teatro Popular de Arte, ao lado de Itália Fausta, a maior atriz da
época. Nesta mesma Companhia, conhece o maior amor de sua vida, Sandro
Polloni, sobrinho de Itália Fausta, que herdara da tia a paixão
pelo teatro. O casamento só terminaria na véspera do natal de
1995, com a morte de Sandro.
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Com o companheiro Sandro Polloni em cena de A Rainha Morta - 1946
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"A atriz recorda seus dois relacionamentos amorosos importantes: "Eu
tive dois homens maravilhosos na vida. De um lado o Fernando com quem eu converso
até hoje quase todas as noites por telefone, e de outro o Sandro com
quem vivi quase 50 anos. Com o Fernando foi uma união bonita. Ele foi
um Pigmaleão. Me ensinou boas maneiras. Eu era uma garota simples de
Porto Alegre, me ensinou tudo". E arremata saudosa: "Com o Sandro
foi um casamento de amor, de respeito, de trabalho. Quando ele morreu, há
6 anos, eu perdi meu grande companheiro de tudo. Perdi o tesão de fazer
teatro. Novela não, que eu nunca gostei de fazer novela".
Maria e Sandro, recém-casados, iniciam o mais ousado projeto de suas
vidas: a construção de um teatro próprio. Ainda no Rio
de Janeiro procuram todas as Casas de Crédito Imobiliário e só
recebem respostas negativas. Partem para São Paulo e peregrinam até
conseguir alguém que acredite na jovialidade e honestidade do casal.
"Conseguimos nosso teatro graças ao Otávio Frias que entendeu
nosso problema e financiou a obra. Na época o Otávio era Diretor
da Bolsa Predial do Banco Nacional. O Otávio sempre gostou de teatro,
tanto que o filho dele, Otavinho, é dramaturgo. O primeiro texto dele
eu encenei.", relembra Maria.
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Na montagem de Ralé, com Paulo Autran - 1951
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A empreitada exige do casal dedicação integral. A execução
das obras os obriga a dividir-se entre muitos projetos. A atividade intensa
era necessária para saldar o financiamento do teatro. "Viajamos
o Brasil de ponta a ponta. Fizemos teatro na França, Portugal, Itália,
Argentina, várias vezes e com uma companhia de 40 atores. Construímos
o Teatro Maria Della Costa. Levamos 15 anos pagando o teatro. Depois colocamos
ar condicionado e levamos mais 2 anos pagando", contabiliza a atriz.
A construção do teatro já havia começado quando
Franco Zampari a convida para filmar na Companhia Vera Cruz. Ela acaba não
realizando o filme e é transferida para o TBC, também de Zampari,
para fazer A Ralé, de Gorki, dirigida por Flaminio Bollini.
Mais tarde, a insistência do empresário italiano para que ela
desistisse de seu teatro e continuasse no TBC, não surtiria o efeito
desejado e intensificaria o desejo da jovem atriz de terminar sua própria
casa de espetáculos. Ela conta que o teatro estava pronto, faltando apenas
as poltronas e as cortinas. Em mais um lance ousado, Sandro telegrafa ao presidente
Getúlio Vargas que concede uma audiência. "O Getúlio
disse: eu vou ajudar vocês. Em troca eu quero teatro infantil, teatro
para estudantes, teatro popular para trabalhadores e teatro nos bairros. Ele
chamou um ministro e disse que nos ajudasse", recorda Maria Della Costa,
que presenciou o pressentimento de um fato trágico que marcaria a história
do país. "Eu agradeci a ajuda e disse que não queríamos
aborrecê-lo mais, porque ele estava com um ar cansado e triste. Ele disse
que estava triste porque sentia que alguma coisa iria lhe acontecer. Oito dias
depois ele morreu".
Assédios até inconvenientes
A obstinação da atriz a levaria a viver situações
insólitas. O assédio era freqüente e os candidatos a patrocinadores
exigiam em troca favores nem sempre profissionais. Ela conta uma passagem ocorrida
numa festa que reunia a elite paulistana. Convidada pelo senador Cesar Vergueiro,
próximo do governador Ademar de Barros, a quem Maria havia solicitado
uma audiência, ela explica ao governador os projetos de sua companhia.
Ela pretendia prorrogar sua temporada no Teatro Municipal, além de realizar
uma viagem pelo país. E solicitou que Ademar assinasse o Livro de Ouro
que angariava recursos para terminar seu teatro, cuja construção
estava suspensa. "Ele botou a mão no bolso e jogou várias
notas no chão dizendo: aqui está, se você quiser, pegue.
O senador que era um homem muito fino, abaixou, pegou as notas e entregou para
o governador dizendo: Não Ademar. Não faça isso. Ela é
uma moça muito séria", revive a atriz o momento constrangedor.
Mas a intervenção do senador não encerraria o episódio,
e ela ainda seria vítima de nova tentativa de assédio. "O
secretário do Ademar veio me perguntar quanto eu queria para dormir com
ele. Mandou dizer que eu era um bom cavalinho de raça. Por algum tempo
eu tive que me afastar de São Paulo devido à perseguição
do Ademar de Barros", arremata Maria.
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O Canto da Cotovia, de Jean Anouilh - 1954
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Em 1954 o sonho torna-se realidade. O teatro é inaugurado com a peça
O Canto da Cotovia, dirigida por Gianni Ratto, que Sandro importara da Itália.
No elenco Sergio Brito, Eugênio Kusnet, Wanda Kosmos, Manuel Carlos, Eny
Autran (irmã de Paulo Autran) e Fábio Sabag.
A exemplo do que ocorrera no final da década de 40 com o TBC, que busca
na Europa artistas para executar suas obras, o Teatro Maria Della Costa também
se vale do mesmo expediente e, além de Gianni Ratto, contrata outro italiano,
Flaminio Bollini além do francês, Maurice Vaneau.
A miséria provocada pela 2ª guerra abre portas para a primeira
migração de mão de obra qualificada. O teatro brasileiro
lucra com a nova migração de diretores, atores e cenógrafos
que vem para cá a procura de trabalho. Emilio Fontana situa o momento
cultural efervescente que coincide com o início da profissionalização
do teatro no país. "A Europa estava destruída. Não
havia trabalho. Os museus tinham os telhados arrebentados. Nessa época,
Assis Chateaubriand, junto com Pietro Maria Bardi, compraram quadros importantes
a preço de banana, para formar o acervo do Masp. O Otelo Zeloni contava
que não tinha o que comer em Nápoles. O próprio Adolfo
Celi, que Franco Zampari trouxe para dirigir no TBC, estava numa situação
difícil na Itália. O Aldo Calvo que era arquiteto e cenógrafo,
projetou o Teatro Maria Della Costa, com os mais modernos conceitos e equipamentos
destinados a salas de espetáculos".
Além da modernidade técnica, fundamentos praticamente desconhecidos
pelos brasileiros, são introduzidos e revolucionam a maneira de fazer
teatro. Tânia Brandão da Silva, em sua tese Peripécias Modernas:
Companhia Maria Della Costa esclarece: "A atuação de Ziembinsky,
que chegou ao Brasil fugido do nazismo, provoca um salto de qualidade no teatro
brasileiro. São transformações decorrentes da utilização
do método de Stanislavski na construção das personagens.
O diretor trabalhou também as pausas de intenções nos textos.
Ziembinsky mostrou a diferença entre interpretação e representação.
E impôs a noção de equipe, contra a anterior hegemonia do
astro sobre o restante do elenco".
As peças levadas pela Companhia, que trabalha ininterruptamente, lança
inúmeros atores que fariam parte do 1º time nacional. Entre eles,
Fernanda Montenegro, Jardel Filho, Carlos Zara, Fábio Sabag, Milton Moraes,
Sergio Brito e Régis Cardoso. Os hoje celebrados autores de novelas,
Silvio de Abreu e Manoel Carlos, então atores, também iniciaram
suas carreiras com Maria Della Costa.
Reconhecimento internacional
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Alice Que Delícia, de Antonio Bivar - 1987
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A Companhia torna-se centro de referência na vida cultural brasileira,
com montagens pioneiras de peças que propunham ao público questionamentos
e reflexão. Durante décadas encenou grandes nomes da dramaturgia
nacional e internacional. Foi a primeira companhia no Brasil a encenar A Prostituta
Respeitosa de Jean Paul Sartre, A Alma Boa de Setsuan, de Brecht, O Marido Vai
à Caça, de Feydeau, Rosa Tatuada, de Tennesse Willians, Depois
da Queda, de Arthur Miller, e O Anjo Negro de Nelson Rodrigues, entre outros.
O trabalho ganha reconhecimento internacional com Gimba, de Gianfrancesco Guarnieri,
dirigida por Flávio Rangel. Pela primeira vez uma peça é
convidada para representar o Brasil no Grande Festival das Nações,
no Teatro Sarah Bernhardt, em Paris. Nessa mesma viagem o espetáculo
ainda excursionaria pela Itália e Espanha.
As dificuldades enfrentadas durante a construção do teatro não
encerrariam os obstáculos enfrentados pela atriz. Em 1959, durante a
viagem à Europa, a censura portuguesa, sob o regime de Salazar, impede
a apresentação dos espetáculos do repertório da
Companhia que incluía obras de Brecht, Guarnieri, e Sartre, entre outros,
sob a alegação de que os autores eram comunistas. "Fomos
expulsos de Portugal e impedidos de apresentar nossas peças. Ficamos
sem dinheiro e não podíamos ir para Paris, apresentar Gimba, porque
não podíamos comprar as passagens. Eram 40 atores. Ficamos um
mês em Portugal, indo ao aeroporto, para ver se encontrávamos algum
brasileiro disposto a ajudar. Até que encontramos o jovem Leonel Brizola,
governador do Rio Grande do Sul e explicamos a situação para ele.
Mais tarde recebemos o telefonema de um banco avisando que conseguíramos
as passagens. Até hoje, eu nunca encontrei o Brizola para agradecer",
lembra Della Costa.
A viagem, entretanto, seria precedida de uma intimação do governo
português para alertar sobre as condições impostas pelo
regime. O governo permitiria a viagem desde que o incidente não fosse
revelado para a imprensa internacional. A atriz recorda que a revolta que tomou
conta do grupo. "Ficamos indignados, mas fomos obrigados a aceitar a condição
pois o navio Vera Cruz, que nos levara e que também nos traria de volta
ao Brasil, partia de Lisboa. Caso revelássemos o incidente, teríamos
nossa entrada barrada em solo português".
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Com Jardel Filho em Rosa Tatuada - 1956
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A atriz também viveria momentos difíceis com a censura brasileira.
A proposta de trabalho da Companhia, moderna para a época, irrita o regime
militar que se instalara no Brasil em 1964. Vista pelos novos chefes de estado
como politicamente incorreta, Maria, junto com a classe teatral, sofre pressões.
O acirramento das pressões a levaria a refugiar-se em Parati, cidade
litorânea na divisa dos estados São Paulo e Rio de Janeiro, onde
mais tarde ela inauguraria seu hotel.
Antes de ir para Parati, entretanto, ela seria convocada a depor no DOPS (Delegacia
de Ordem Política e Social) paulista. O interrogatório pretendia
esclarecer suas relações com o psiquiatra comunista Beline Buzar
e com o escritor Jorge Amado, com quem ela realizara uma viagem a Moscou. Ela
relembra uma passagem pitoresca: "Eles queriam saber quem eram os comunistas
do teatro. Queriam saber também o que eu tinha ido fazer na União
Soviética. Diziam que eu tinha feito uma reunião com um tal Tche
Tife. Como eu não conhecia, pedi para ler o nome. Era Anton Tchekhov.
Eu expliquei que era um grande autor russo, morto em 1900. Eles ficaram bravos
e ameaçaram me levar para o porão, se eu continuasse a brincar".
Nada engraçado porém foi o roteiro percorrido por ela e o marido
quando policiais exigiram dinheiro para desaparecer com o processo. Após
levantar a soma, o casal embarcou no carro. Ela lembra a ansiedade vivida naquela
tarde: "Foi o pior dia da minha vida. Eles não sabiam se nós
estávamos sendo seguidos. E nós estávamos com medo de entregar
o dinheiro e sermos eliminados. Foi uma tarde inteira dando voltas por São
Paulo. Mudamos de carro umas 3 ou 4 vezes. Por fim, o Sandro entregou o dinheiro
e eles disseram que iam sumir com o processo".
Nos arquivos do extinto DOPS, também disponíveis para consulta
no Arquivo do Estado, é possível verificar que no processo nº
50Z950563, de 01 de junho de 1977, Gentile Maria Marchiaro (o nome verdadeiro
da atriz) foi fotografada e prestou depoimento.
Hebe e Elis junto com a atriz no DOPS
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Com Fernanda Montenegro em Com A Pulga Atrás Da Orelha - 1955
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Constam ainda do mesmo processo, entre muitas outras, as fichas de Hebe Camargo
e Elis Regina, que registram no campo profissão, prendas domésticas
e Flávio Rangel, profissão comerciante.
A perseguição e o obscurantismo da época talvez tenha
sido o momento mais difícil de ser superado pelo casal. "Depois
do golpe militar ficamos 20 anos no ostracismo. Tivemos que fugir, eu vim para
Parati, outros foram morar fora do Brasil. Foi uma época horrível.
Os teatros eram invadidos sob a alegação que estavam cheios de
comunistas. Paravam os espetáculos. Para se montar novos espetáculos,
fazíamos ensaios para a censura. Os textos eram mutilados. Como artistas
nossa função é falar e retratar os anseios do povo. Bastava
fazer arte ou ser ator, cantor, poeta, escritor, para ser tachado de comunista.
Foi uma época de perseguição", lembra Maria Della
Costa.
A perseguição dos militares boicotando o trabalho, começa
a minar a resistência dos donos e a dificultar a sobrevivência financeira
do empreendimento. Numa última tentativa de garantir a condição
de teatro ao imóvel, procuram o ministro da educação, Ney
Braga que assume a compra e mantém suas atividades originais.
Após a venda, a atriz recolhe-se em Parati e assume a Secretaria de
Cultura da cidade. Só voltaria ao teatro, 3 anos depois, a convite de
Antunes Filho, para fazer Bodas de Sangue, de García Lorca.
Com a mesma elegância da diva que encantou platéias por onde passou,
a única atriz esculpida em tamanho natural por Brecheret, recebe os hóspedes
que procuram seu hotel. "Eu nunca me prostitui. Eu poderia ter casado com
homens ricos, mas me casei com um homem pobre por amor. Tudo o que fiz e que
faço é por amor. É por isso que eu tenho bom astral. Meus
hóspedes me amam. Eu deito a cabeça no travesseiro e digo: mais
um dia que passou e não fiz mal a ninguém. Eu acho que isso é
o que vale a pena, o resto é blá blá blá",
sentencia.
Essa é apenas uma pequena mostra do material que pode ser consultado
no Centro de Memória do Teatro Paulista. De acordo com Emilio Fontana,
é preciso uma nova mentalidade de preservação, uma forma
mais democrática de acesso às informações. "O
trabalho é árduo. As pessoas não querem se desfazer de
seus acervos e fazem restrições em doar para um órgão
público", reitera Fontana.
O Centro está aceitando doações de material antigo ou
contemporâneo (cartazes, fotos, textos, ingressos, críticas, artigos,
entrevistas etc) A única exigência é que as peças
doadas sejam originais.
Os interessados devem procurar o Arquivo do Estado que está localizado
na Avenida Voluntários da Pátria, 596, próximo a estação
Tietê do Metrô. Abre de segunda a sexta-feira, das 9 às 17
horas. O Telefone é (11) 621-4785. Os internautas podem acessar o site
www.arquivoestado.sp.gov.br
Créditos: Esta é uma reprodução da matéria
publicada na Revista Cultural, ano III, n° 33 de abril de 2002
Jornalista responsável: Vânia Barboni
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